Camilo Castelo Branco - Maria Moisés

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Maria Moisés Camilo Castelo Branco BD Biblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA

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  • Maria MoissCamilo Castelo Branco

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    Novela: Maria Moiss, de Camilo Castelo Branco

    A Toms Ribeiro

    So passados dez anos depois que vieste aqui. Foi ontem: e apedra onde gravei o teu nome est denegrida como a dos tmulosantigos. Debaixo dela esto dez anos da nossa vida. Jazem ali oshomens que ento ramos. Estou vendo Castilho encostado aofriso da coluna tosca; estou ouvindo os teus versos recitados emnome dos meus filhos Ah! verdade Tu no os recitaste por-que tinhas lgrimas na voz e no rosto. Que faria de ti a poltica,meu querido, meu poeta da ptria e da alma?

    S. Miguel de Ceide, Novembro de 1876.

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    O pequeno pegureiro contou as cabras porta do curral; e,dando pela falta de uma, desatou a chorar com a maior boca ebulha que podia fazer. Era noite fechada. Tinha medo de voltar aomonte, porque se afirmava que a alma do defunto capito-morandava penando na Agra da Cruz, onde aparecera o cadver de umestudante de Coimbra, muitos anos antes. O povo atribura aquelamorte ao capito-mor de Santo Aleixo de alm-Tmega, por vin-gana de cimes, e propalava que a alma do homicida, de fraldasbrancas e roagantes, infestava aquelas serras. O moleiro das Pol-dras contrariava a opinio pblica, asseverando que a aventesmano era alma, nem a tinha, porque era a gua branca do vigrio. Amaioria, porm, ps em evidncia o facto psicolgico, divulgandoque o moleiro era homem de maus costumes, tinha sido soldado naguerra do Rossilho, no se desobrigava anualmente no rol daigreja, nem constava que tivesse matado algum francs.

    Era por 1813, meado de Agosto, quando o pastor chorava enco-lhido, a um canto do curral, e pedia ao padre Santo Antnio commuitas lgrimas que lhe deparasse a cabra perdida.

    Joo da Laje, o amo, assomou porta da corte, e bradou: Perdeste alguma rs?O rapaz tartamudeou, tiritando de medo. Perdeste, ladro? Vai em cata dela, e, olha l: se a no trouxe-

    res, no me apareas mais, que te arranco os fgados pela boca.E deu-lhe dois valentes pontaps conta.

    Maria Moiss Camilo Castelo Branco3pg.

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    Primeira Parte

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    Este Joo da Laje era homem de princpios menos maus, assen-tados em religio e ptria; havia matado dois franceses doentes nasambulncias retardadas, e acreditava que o fantasma era a almado capito-mor e no a gua branca do vigrio.

    O rapazinho deitou a correr, e l foi, a caminho da serra. Tendode optar entre os malefcios da alma penada e a biqueira dotamanco do amo, preferia encontrar o defunto capito-mor. Aindaassim, ia rezando alto quanto sabia da cartilha: os PecadosMortais, as Obras de misericrdia, os Sacramentos da SantaMadre Igreja, tudo. sada da aldeia, recuou estarrecido. Vira umfantasma branco a destacar das trevas, e agachado na raiz de umcastanheiro.

    Z da Mnica, s tu? perguntou o suspeito fantasma. Sou eu, tia Brites respondeu o rapaz suspirando ofegante.

    Credo! Que medo voc me fez! Tu onde vs a esta hora?! Vou cata de uma cabra. Voc viu-a? Eu no. Olha l, a tua ama Zefa tambm anda procura da

    cabra? gora! A senhora Zefinha est doente h mais de ms e meio

    na cama. Isso sei eu; mas havia de jurar que a vi saltar agora o portelo

    da cortinha do rio! Se no era a Zefa era o demo por ela!O rapaz tornou a tolher-se de medo, e perguntou a meia voz: Seria a alma? Do Sr. capito-mor? No me pareceu; que ela ia de saia escura,

    e levava um saiote pela cabea.Neste comenos, descia o moleiro do lado da serra pela barroca

    escura com dois jumentos carregados de foles, e vinha cantando:

    J fui canrio do rei, J lhe fugi da gaiola,Agora sou pintassilgoDestas meninas dagora.

    Pra pintassilgo ests muito fanhoso, Lus! disse galho-fando a Brites do Eir.

    Ol, sua bruxa, que feitios est voc a fazer a? respondeuo veterano do 2. regimento do Porto. No me meta medo aos

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    burros que eles j esto estacados a olhar pra voc. Deixe passaros parentes.

    Eu no sou da tua famlia, ouviste, jacobino? replicou avelha; e fazendo-lhe duas figas, acrescentou: Toma, que te dou eu,herege!

    tio Lus! perguntou o pegureiro Vossemec viu a naAgra da Cruz uma cabra?

    No a vi, rapaz, mas ouvi-a berrar l para o rio. Mete a pelacangosta do Estvo, e vai pela beira do rio abaixo que a topas lpara a Vrzea das Poldras ou na nsua.

    Est mesmo indo... interveio a tia Brites. Boa hora estapara um rapazinho se meter cangosta do Estvo!

    Ento que tem? Que tem?! Vai pergunt-lo Zefa do Joo da Laje que ficou l

    tolhida uma noite, e nunca mais teve sade. Sim, sim, tia Brites; voc l sabe desses tolhios, e eu tam-

    bm sei como as raparigas se tolhem nas cangostas. Tens medo,rapaz?

    Tenho, sim, senhor. Espera a que eu venho j.E, tangendo os burros que espontavam o tojo dos valados, foi

    descarreg-los, encheu-lhes a manjedoura de erva, gargalaou daborracha uma vez de vinho, e voltou onde o esperava o pastor, aquem a tia Brites contava casos vrios de almas penadas.

    Vamos l, pequeno disse o moleiro. Conheo bem o teuamo, e sei que ele conta da cabra, se tiver meio quartilho deaguardente no bucho, capaz de te quebrar os braos; por isso que eu ta vou ajudar a procurar. De que tens tu medo, rapaz? daalma do capito-mor? No sejas tolo. As almas boas dos que mor-rem so de Deus, no fazem mal a ningum; e as ms so do diabo,que as no larga das unhas.

    Arrenego-te eu! Este homem est vestido e calado no inferno! murmurou a tia Brites, erguendo-se indignada, benzendo-se deombro a ombro, e do alto da cabea ao umbigo.

    Que est voc a rosnar, mulher! Que este rapazelho seja parvo,tem desculpa; mas voc, com mais de setenta anos na carcaa, jtinha tempo de ter juzo nesses cascos. Voc j viu almas, criatura?

    A mim no me empecem, graas a Deus! respondeu Britescom desvanecimento. Elas bem sabem com quem se metem.

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    No se metem no seu corpo? Pudera... redarguiu o veteranosempre risonho. Eu, se fosse alma penada, topando com voc,desatava a fugir. A alma que se metesse nesse corpo devia sair sujacomo a ratazana dum cano.

    Vai-te, vai-te, jacobino; cruzes, diabo, cruzes! exorcismou atia Brites com dois dedos em cruz, e meteu-se em casa s arrecuas.

    ** *

    o que te digo, rapaz. Deixa l asnear o povo. Olha se teguardas de alguma sacholada do teu amo, que das almas do outromundo te livro eu.

    O moleiro ia conversando com o pastor pela pedregosa cangostado Estvo. Apesar das palavras animadoras do veterano, o rapaz,ao passar nos lanos mais escuros do pedregal, ia orando mental-mente fragmentos da Cartilha. Os vaga-lumes fosforeavam entreos silvedos, e s vezes um melro assustado batia as asas na rama-gem das sebes. O pastor ento maquinalmente agarrava-se aobrao do moleiro, que lhe metia a riso a covardia.

    Ao fundo da viela, que desembocava no rio, havia dois portelos,um direita para uma vrzea de milho espigado com grande folha-gem, outro esquerda para um panascal que entestava com a cor-rente do Tmega. Saa ento do rio para a cangosta um grandevulto alvacento chofrando na gua com pernadas longas e mesura-das. O rapaz expediu um ai rouco e, agarrando-se aos suspensriosde couro do moleiro, gritou:

    tio Lus, tio Lus!... Que ? Vossemec no v? Vejo, pedao de asno, vejo; a alma do capito-mor que anda

    a pescar bogas com chumbeira... No vs que um homem emfralda? Abre esses olhos, bruto!

    Era o caseiro da quinta de Santa Eullia, que vinha batendocom a chumbeira as angras do rio por onde o escalo costumavaacardumar-se.

    s tu, Francisco Bragadas? perguntou o moleiro. Sou.

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    Ouviste por berrar uma cabra? H pedao, berrava ali no bravio do Pimenta; mas j depois a

    ouvia l pra baixo na nsua. O peixe cai? D c duas bogas para eu cear. m noite. O peixe meteu-se aos poos. Anda coisa m por

    aqui... Vou-me chegando a casa. Coisa m? Topaste algum avejo no rio? Olha que a alma do

    capito-mor anda na serra; mas talvez viesse tomar banho, que anoite est quente.

    Homem volveu o pescador escrupuloso , deixemo-nos degraolas. A bem perto donde tu ests, para l desses salgueiros,ouvi eu, quando passei pra riba, uma coisa que parecia uma cria-tura a chorar e a gemer.

    Isso era coruja ou sapo replicou o moleiro com a intemeratacerteza das cincias naturais. Se tens medo, vou contigo; mashs-de repartir do peixe que levas... L est a cabra a berrar,ouves, rapaz?

    J passou para alm do rio disse o da chumbeira havia deser pelo aude. Tendes que fazer. Adeus, Lus.

    M raios partam a cabra! praguejou o moleiro. Temos deir passar s Poldras. Olha que espiga! Eu antes queria pagar a rsa teu amo que ir agora alm do rio!

    Neste momento, ouviram gemidos, que pareciam pouco distan-tes, beira do rio.

    O pastor, com as mos fechadas sobre a boca, e pondo-se deccoras, disse:

    Ai Jesus! Aquilo cousa! observou o veterano com pachorrenta refle-

    xo. Bem dizia o outro. No coruja nem sapo... gora ! Ento que , tio Lus? perguntou o rapaz com a rouquido

    afnica do pavor. uma mulher a chorar, tu no ouves? Vamos ver quem geme

    antes de mais nada.Transps o moleiro de um pulo o valado, tossindo de maneira

    que significava coragem neste bravo do Rossilho, mas que emoutros bravos que tossem no tem sempre o mesmo significado. Opequeno seguia-o to de perto que o trilhava nos calcanhares.

    Seguiu bem rente a ourela do Tmega; de vez em quando ouviaos gemidos, mas pareciam-lhe mais longe ao passo que mais se avi-

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    zinhava, porque a voz ia esmorecendo em soluos abafados. Ao cabodo ervaal adensava-se uma moita de lamos e salgueiros, e l nointerior o rio espraiava-se, formando lenol de gua murmurosa,onde os pescadores colhiam com as chumbeiras as bogas no tempoda desova. Ao chegarem ali, ouviram estas palavras:

    Quem me acode, que eu morro sem confisso! Ela a senhora Zefinha! a minha ama! Valha-me Deus!

    exclamou o pastor, e com incrvel nimo rompeu a direito por entrea ramaria do salgueiral, e saltou, sem arregaar-se, ao rio, que lhedava pelo joelho. O moleiro seguiu-o. Com meio corpo na gua e osbraos enroscados no esgalho de uma rvore, entreviram, mal dis-tinto na escurido cerrada da ramagem, aquele vulto de mulher,que repetia as palavras:

    Quem me acode, que eu morro sem confisso! senhora Zefinha! disse o rapaz vossemec? e deitou-

    -lhe os braos ao peito erguendo-a para si. tio Lus, ajude-meque eu no posso!

    Eu c estou disse o moleiro, levantando-a a custo, porqueela tinha as mos recurvas e os braos rijamente hirtos no troncodo salgueiro, como se em nsias de asfixia se houvesse agarradonele.

    Isto que foi, Josefa? perguntou Lus, tomando-a nos braos,e galgando a custo o valado que se esbarrondava cedendo aos psvacilantes de Lus, molhados pela gua que escorria dos vestidos.

    A filha de Joo da Laje, estorcendo-se nos braos do moleiro,dizia com palavras soluantes:

    No me leve para casa, pelas almas benditas. Deixe-me deitarna terra, e v chamar o senhor vigrio para me absolver, que euestou a expedir.

    Tem pacincia, moa; aqui no te deixo, que ests toda enso-pada em gua, e tens a cara a arder... Tu caste ao rio, Josefa? Quevieste aqui fazer to de noite?

    Jesus valei-me! Jesus acudi-me! Jesus salvai-me! murmu-rava ela perdendo o alento e tiritando em calefrios.

    Lus, receando que a convulsa rapariga lhe expirasse nos bra-os, atirou-a para o ombro direito, e apertou o passo por entre oervaal, dizendo ao rapaz que fosse adiante avisar o amo.

    No momento em que transpunha o portelo, com o embarao dopeso e do estorvo que lhe fazia o vestido molhado, teve de colher as

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    saias com a mo esquerda; e, neste lance, sentiu nas costas da moum contacto de lquido quente com fartum enjoativo de sangue.Ento pensou que ela estivesse ferida, e perguntou:

    Tu feriste-te, Josefa?Ela no respondeu, nem gesticulou levemente. Os braos pen-

    diam inertes ao longo das costas do moleiro, e a cabea balanavamaquinalmente conforme os movimentos variados que ele lhe davaao corpo, ajeitando-o para saltar a parede escadeada. Vencida adificuldade, e conseguindo assentar o p no trilho pedregoso, poronde viera, sentou-se esbofado no respaldo de uma fraga; e, comogelado do terror do cadver que lhe parecia resfriar nos braos, tre-mia, descendo do ombro para o regao a mulher que efectivamenteestava morta.

    Chamou-a, agitou-a, invocou as almas mngua dos recursoshumanos; e, encostando-a ribanceira, enxugava com a rama defetos secos o suor que lhe gotejava das faces ao peito.

    Poucos minutos depois, Joo da Laje, o vigrio e outras pes-soas, atradas pela curiosidade ou pela compaixo, desciam a can-gosta do Estvo com fachos de palha acesos. A Brites do Eir, queos vira passar, ajuntou-se ao grupo dizendo que, ao toque das Trin-dades, tinha visto Josefa saltar para o campo da Lagoa e meterpara o lado do rio, com o saiote pela cabea.

    Na extrema da viela encontraram o Lus moleiro sentado beira de Josefa que, vista luz dos archotes, parecia viva porquetinha os olhos abertos.

    Que isso, rapariga? perguntou o pai. No lhe perguntes nada, Joo, que ela est com Deus res-

    pondeu Lus.O vigrio, apalpando-lhe as mos e o rosto, confirmou: Est coberta de suor frio. Que foi isto? ajuntou ele, vol-

    tando-se para o Joo da Laje Voc h-de saber pouco mais oumenos por que esta boa rapariga se deitou a afogar!

    Eu no sei respondeu o pai com a serenidade de um estra-nho narrador. Ela estava doente h mais de ms e meio; mandeichamar o boticrio de Frime; ele receitou-lhe no sei que barza-bum de xaropadas que a rapariga nem pra trs nem pra diante.Ora vai hoje ali pela sesta fui achar a minha Maria a chorar, masnada me disse. Depois, fui regar um campo de milho, e, quando tor-nei a casa noite e perguntei por minha mulher, soube que ela

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    estava ainda no palheiro. Fui-me onde a ela, perguntei-lhe o quetinha, e ela j me no respondeu, porque estava sem acordo; pegueinela e deitei-a na cama; e agora, quando l chegou o rapaz com anotcia, ia eu mandar chamar o barbeiro das Vendas Novas a ver sema sangrava.

    Nesta conjuntura, voltaram-se todos para um dos campos poronde vinha correndo a me da morta, chamando a filha em grandesbrados.

    Os archotes erguidos ao alto alargaram a penumbra e conden-saram mais a treva por onde o vulto da mulher vinha crescendocom as mos na cabea. A Brites aconchegava-se do vigrio a fimde, no caso de interveno diablica, se encostar coluna da Igreja.Lus meditava nas revelaes do lavrador, e Joo esperava quieto,silencioso e estpido a chegada da mulher.

    Ela saltou do campo barroca por cima do tapume de espinhei-ros e silvas, foi direita filha, deitou-se sobre ela a beij-la, asacudi-la, a cham-la com gritos de louca, e ali perdeu os sentidosentre os braos brutais do marido que se esforavam por des-prend-la da morta.

    ** *

    Vinte e quatro horas depois, o cadver de Josefa de SantoAleixo, a loura mocetona, desceu cova, porque o fedor da podridoobrigara a alterar o estilo das quarenta e oito horas sobre terra.Maria da Laje, a me, diziam que dava em louca, porque nocomia, nem bebia, nem chorava; e, durante a noite, fugira para olado da serra. O pai da defunta, aborrecido dos interrogatriosimpertinentes que lhe faziam os vizinhos e parentes acerca dascausas que levaram Josefa a matar-se, fechou-se na adega; e, nassecuras da sua ardente aflio, natural que bebesse.

    O leitor urbano mal imagina como so estes pais e maridosrurais quando lhes morrem as filhas ou as mulheres. Os mais lgu-bres, se esto seis horas no forado jejum a que os obriga a funerallareira apagada, comeam a cair num sentimentalismo de burroscom fome. Nunca vi uma lgrima luzir nestas caras. s vezes, mor-rem mes que deixam um grupo de crianas ali a chorar num canto

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    da cozinha. Os vivos olham para os pequeninos de travs, eralham-lhes brutalmente. A estupidez mais valente que a morte.Se falta a luz que adelgaa e rompe a treva do homem brbaro, mistura com a velhacaria que a civilizao lhe tem dado, o crebroe o corao so umas empadas de massa inerte, umas substnciasgranulosas ou fibrosas contidas em sacos membranosos. No hnada mais bestial que o homem sem a alma que se faz na educao.A mulher j no assim. A maternidade uma ilustrao que lhed a intuitiva inteligncia do amor e das grandes tristezas. Essas,em toda a parte, a chorar, so mulheres; e, ainda na derradeiracurva que atasca em lama a espiral da degradao, -lhes conce-dido remirem-se pelas lgrimas. Estas reflexes no so todasminhas: quem fazia algumas era um escrivo do juiz de paz, quefora desanojar o Joo da Laje; e, posto a um canto do sobrado, con-versava com um minorista da Pvoa, que assistira aos responsos.

    Voc conhecia esta rapariga, padre Bento? perguntou o fun-cionrio ao minorista.

    Vi-a uma vez na romaria de S. Bartolomeu, fez um ano a 24de Agosto. Assisti-lhe aos exorcismos na capela do santo.

    Ah! conte-me isso... ela tinha demnio no corpo? Note voc,padre Bento, que os espritos maus quase sempre se ferram nosbons corpos!

    O tonsurado entreabriu um sorriso de forada complacncia, eno deu azo a que o esprito forte abrisse a vlvula dos sarcasmos,por causa dos quais havia sido expulso de um convento gracianoonde noviciava, e tambm porque sabia francs, e lia O Citador dePigault Lebrun, e chamava carniceria da Revoluo Francesa agrande operao da catarata social. Dizia coisas como os socialistasde hoje, que esto a chocar o ovo de uma coisa pior, que h-de seros socialistas de amanh.

    Bonita era ela... concordou o estudante de teologia dogm-tica; e, movendo pausadamente a cabea como quem confirma umarecordao dolorosa, acrescentou: Bem sei eu quem foi a causadeste suicdio...

    Sabe? E est calado com isso... Estou, e... estarei respondeu discretamente. J sei quem foi a causa de se suicidar a Josefa acudiu o

    escrivo. Sabe?... Ento quem foi?!

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    Foi voc, padre! No me diga isso nem a rir! acudiu o telogo com semblante

    mortificado. Estou a brincar, padre Bento. Sei quem o meu amigo; sabe-o

    toda a gente; mas conte-me essa histria se confia em mim. Lembre-se que essa pobre mulher ainda est quente na terra.

    Conversaremos outro dia.O minorista ergueu-se, quis despedir-se de Joo da Laje, que se

    fechara na adega com a sua dor, e saiu acompanhado do escrivo,que o no largou at lhe arrancar o segredo s relutncias doescrpulo. O futuro presbtero compreendia cristmente o dever dacaridade; mas, vencido pela pertincia do amigo, disse o que sabia,encarecendo o melindre da revelao. Sumariamente contou oseguinte:

    Que Josefa, quando foi exorcismar-se capela de S. Bartolo-meu, a Cavez, no tinha no corpo o esprito imundo; e acrescentouentre parntesis que no duvidava da existncia de demnios scu-bos e ncubos1.

    E demonstrou que havia obsessos, autorizado com S. Gregrio,Santo Anastsio, Santo Hilario, que lutou com eles em forma demulheres. O escrivo replicava que todos os homens eram Hila-ries, e cada qual era o demnio de si mesmo; porm no citavaautor digno de crdito; toda a sua erudio neste importanteassunto era um fragmento de m e velha poesia francesa que diziaassim:

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    1 A profunda certeza de que o corpo humano est exposto s invases diablicas entra no Minho emcapacidades de bacharis. Vinte e oito anos depois que o minorista professava crenas em obsessos,por 1841, na freguesia de Ribas, concelho de Celorico de Basto, um moo de lavoura requeria ao juizde paz que o era dos rfos tambm neste sentido: "Que a alma de certa pessoa se lhe metera nocorpo, e o no deixava dormir, exigindo-lhe um sermo e certo nmero de missas; e, como ele supli-cante era pobre, requeria que despesa fosse feita custa da caixa dos rfos".O juiz de paz ponderou seriamente e conscienciosamente a justia do pedido; mas no quis aindaassim decidir sem consultar pessoa de maiores teologias. Mandou, pois, ouvir o doutor curador dosrfos; o qual respondeu "que se ouvisse previamente o conselho de famlia". O conselho reunido deli-berou que, visto o doutor curador no impugnar, era de parecer que se concedesse alma a graa querequeria, e se aliviasse o rapaz do vexame. Em consequncia, pregado o sermo e ditas as missas, orapaz ficou so e escorreito. (Veja o Peridico dos Pobres no Porto, de Maio de 1842, e a Revista Uni-versal Lisbonense do mesmo ano, pg. 430). O doutor curador de Celorico provavelmente est hoje noSupremo Tribunal de Justia a lavrar os acrdos. Semelhante magistrado, se conserva ainda noesprito as velhas crenas at certo ponto crists, de certo no far justia de mouro.

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    On se livre la voluptParce quelle flatte et quon laime;Et si du diable on est tent,Il faut dire la vrit:Chacun est son diable soi-mme.

    O minorista, ouvida a traduo da quintilha, confundiu oadversrio com latim; e, a respeito da filha de Joo da Laje, conti-nuou:

    No era possessa; era a paixo que a desnorteava. O Sr. Mau-rcio conhece o morgado de Cimo de Vila?

    Se conheo! Aquele cadete de cavalaria de Chaves que estu-dou primeiro para frade crzio, e assentou praa quando ficousenhor da casa por morte do irmo!... Esse rapaz foi para a cortecom o pai... foi ele ento quem na apaixonou...

    Foi. H quem os visse no bosque de amieiros da nsua,defronte da Granja. O senhor sabe...

    Conheo esse bosque. O meu padre-mestre de latim chamava--lhe a Ilha dos Amores; foi l que todos os bons latinistas meus con-discpulos leram a Arte de Amar de Ovdio; e o cadete, pelos modos,aplicou as teorias do Sulmonense...

    No vamos to longe, Sr. Maurcio emendou o minorista. O que se diz que ele passava o Tmega nas poldras, com a canade pesca e o cacifro; depois, metia-se na nsua, e a Josefa ia l ter.

    Tudo isso inocentemente pastoril. Depois ele fazia deFelcio, e ela de Florisa, como os pastores de Ferno lvares dO-riente, e altercavam os seus queixumes ao som do arrabil... Vamosao fim do conto: a rapariga, frgil e bonita...

    Devagar atalhou prudente o moo. No inventemos cul-pas, atidos lgica dos delitos. necessrio atender aos tempera-mentos das pessoas, quando no quisermos extrem-las pela vir-tude.

    Padre, eu no o percebo. Quer dizer que eles se amavamhonestamente? Diga isto assim pelo claro, que eu acredito tudoquanto h virginalmente extraordinrio em um cadete de cavalariade Chaves.

    Digo o que sei e presumo sempre o melhor quando no tenhoprovas do pior. E, quando as tenho, calo-me. O que afirmo que omorgado de Cimo de Vila, chegando h dois meses de frias de

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    Coimbra, onde estuda matemtica, pediu ao vigrio de Santa Mari-nha que o casasse com Josefa de Santo Aleixo. O vigrio recusou-see avisou Cristvo de Queirs, pai do cadete. O fidalgo saiu, como osenhor sabe, com o filho para a capital; e l, como o cadete quisessefugir-lhe, ou mesmo recusasse obedecer-lhe, meteu-o no Limoeiro.Entretanto, Josefa suicida-se. Agora, seja qual for a causa quelevou esta mulher morta desesperao, a caridade o que a v uma desgraa, e a religio chora uma alma condenada.

    Adivinhei o que o padre no sabe... Nem quero saber acudiu o minorista; e retirou-se, agitando

    rapidamente ambas as mos com gestos negativos.

    ** *

    A nossa curiosidade, nesta poca de escalpelo, vai alm doslimites que o telogo abalizou sua. Desenterre-se o cadver, evenha para o anfiteatro anatmico.

    Josefa no fora caluniada pelo escrivo, quando ele lhe malsi-nou a inocncia nos sinceirais da nsua. Uma coisa verdadeira, queos maus homens quase sempre tm, a crtica mordaz dos costu-mes. Percebem e farejam os actos mais abscnditos da sociedade,como se a sociedade fosse a obra deles.

    As pessoas cndidas e boas vivem constantemente logradas, eandam to vendidas nesta feira de pecados como o Serafim do autode Gil Vicente. Enlevadas no especulativo, pairando ao de cimadestas ambulncias em que todos gememos amputados na alma ouno corpo, quando cuidam que virtude e resguardo a ignornciadas coisas mundanais, vem o Mercrio do poeta jogralesco de D. Manuel, e diz-lhes:

    Muitos presumem saberAs operaes dos cus,E que morte h-de morrer,E o que h-de acontecerAos anjos e a Deus,E ao mundo e ao diabo.E o que sabem tem por f;

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    E eles todos em caboTero um co pelo rabo E no sabem cujo .

    Isto, que diz aquele grande realista do sculo de quinhentos, verdade. Os que se derem a parafusar operaes do cu, quando malse precatarem, so filados, onde quer que seja, pelo mastim da ironiaque lhes crava o dente canino da chufa. Estes bons coraes passamentre ns mordidos, espavoridos, com os dedos no nariz, e vo dei-xando os palets nas mos incontinentes das Zuleikas.

    Maurcio, o escrivo, tinha no corpo a nevrose que aumenta ocalibre da retina, e lhe espelha imagens atravs de corpos opacos.Raciocinou com a lgica dos corruptos, que a arte de pensar bem.Quem pensava mal era o telogo, imaginando que o cadete e aloura de Santo Aleixo, emboscados num choupal da nsua, erammais inocentes que os pssaros. No se pode ser perfeito hoje emdia sem se ser um bocadinho idiota. A esta saudvel ignorncia dasmisrias do prximo chama o meu padre Manuel Bernardes "trevasclarssimas".

    ** *

    Ora vamos histria, j que me coube em sorte arpoar compena de ferro, no fundo lodoso deste tinteiro, as frases de meutempo.

    Era pescador e caador Antnio de Queirs e Meneses. Viu nomonte a filha do lavrador de Santo Aleixo. As serras tm sombrasdo infinito. O corao a maior que as dimenses do peito. Ohomem, como se v s, no cabeo de um fraguedo, d-se grandezaextraordinria, mede-se pelo comprimento de horizonte a hori-zonte. Se o amor lhe rutilou a como um relmpago que fulguranuma vasta cordilheira de montes, um amor olmpico, titnico,imenso, que, disparado sobre a modstia e singeleza de uma rapa-riga montesinha, faz lembrar Cames:

    ...Qual ser o amor bastanteDe ninfa que sustente o dum gigante?

    Maria Moiss Camilo Castelo Branco15

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    Andava ele cursando retrica em Coimbra para ir vestir ohbito de frade fidalgo em S. Vicente de Fora. Tinha vinte e doisanos, e aspecto pouco de bernardo. Era magro e plido, da palidezdos que amam, segundo o preceito ovidiano: Paleat omnis amans.Tinha xtases nos pncaros das serras, como se ouvisse as harmo-nias das esferas. Sentia o grande vazio que a retrica lhe noenchia. Queria o amor, no queria tropos; preferia uma mulherfeia, se as h, mais ntida metfora de Ccero ou Vieira.

    Nestas ideias o encontrou Josefa da Laje, nos montados da suafreguesia. Coraram ambos. Este rubor era o primeiro lampejo doincndio. Depois, volta de poucos dias, o fogo levou de assaltoaquele combustvel edifcio de inocncia, cheio de fluidos inflam-veis. A serra tinha penhascais, bosques, cavernas, insinuando oamor selvagem. Rodeava-os uma natureza contempornea dohomem vestido da pele do seu confrade em civilizao, o grandeurso e o grande veado. A forma selvtica e antiga do proscnio deu--lhes jeito de antigos actores da vida animal. Ningum que os visse,ningum que lhes lesse os grandes livros do padre Sanches acercado matrimnio. Oh! A solido, entre dois amantes, faz os poetas;mas talvez primitivos de mais, algum tanto galicos, normandos,alheios de tudo o que epistolografia amorosa peles-vermelhasno rigor antropolgico, vista do modo como a gente em honestaprosa costuma casar-se.

    Assim seria; mas eles adoravam-se. No sers frade disse-lhe o corao a ele. Assim que meu pai morrer disse ele filha do lavrador

    caso contigo. Vou sentar praa, quer meu pai queira quer no. Souo morgado, porque meu irmo mais velho morreu.

    Ela, para ser feliz at s lgrimas, no precisava destas espe-ranas. Preferia t-lo e am-lo nas matas chilreadas, nos desfila-deiros dos montes, no sinceiral da nsua, nas alcovas de ramagemque s eles e os rouxinis conheciam nas margens do Tmega.

    Foi por a que deslizaram trs meses do Estio e Outono de1812. Ele foi para Coimbra, com farda de cadete.

    O velho fidalgo de Cimo de Vila ponderou na mudana de ideiasdo filho. Escudrinhou razes secretas que o movessem; todavia, noo contrariou. Tinha meninas para conservar a raa dos Queiroses eMeneses; mas a casta varonil iria pelas geraes alm menossujeita a reparos de genealgicos.

    Maria Moiss Camilo Castelo Branco16

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    Nas suas pesquisas descobriu que o filho, vindo a frias deNatal, passara o Tmega e caara nos montados de Santo Aleixo.Foi visto. que os arvoredos estavam desfolhados; os choupos dansua mostravam as grimpas curvadas flor da corrente arreba-tada; nos recncavos das penedias, em vez dos froixis de relva,havia lenis de neve, palmilhada pelos lobos. Como no tinhamflorestas confidentes, foram vistos beira do rio, ali mesmo, nacangosta do Estvo, sentados naquela fraga, onde o Lus moleiroencostou o cadver de Josefa. O velho no deu a mnima importn-cia denncia, logo que lhe disseram quem era a rapariga.

    Antes por l que pelas criadas da casa disse o assisadofidalgo. rapaz, e precisa de se divertir.

    No ltimo quartel da vida, os pais... e at as mes santoDeus! dizem aquilo. Precisam divertir-se os filhos: levem adesonra onde quer que seja; mas no corrompam a disciplinadomstica, no embarrem pelas criadas, no perturbem o servioda casa. Com que zelo estas matronas veneram a moral da cozinha,da salgadeira e da despensa!

    ** *

    Nas frias de Pscoa, Antnio de Queirs viu chorar Josefa.No eram lgrimas de amante magoada, nem de filha malquista deseus pais: eram lgrimas de me. Entrara-se de uma terrvel ver-gonha e confuso. Ningum a suspeitava; e ela, se algum a enca-rava a fito, estremecia. A me era cruel com as mulheres mancha-das. No seu servio no entrava jornaleira de m nota. No se ajoe-lhava na igreja beira de criatura de ruim vida. Dava-lhe estedireito haver sido filha humilde e esposa honrada do homem comquem a casaram, o Joo da Laje, que era vesgo, cambado, lzudo ebbedo.

    O pai viu de longe, uma tarde, Josefa a conversar em uma bar-roca com o fidalguinho, e disse-lhe:

    Se tua me o sabe d-te cabo do canastro, rapariga.No lhe bateu, porque estava sempre s avessas da mulher. Se

    ele imaginasse que a me fechava os olhos s toleimas da moa,ento com certeza lhe dava.

    Maria Moiss Camilo Castelo Branco17

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    A rapariga tremia pois da me, e queria fugir; mas o cadete,cheio de bons propsitos, jurou-lhe que viria casar com ela, antesde cinco meses. Dizia o cirurgio que o velho tinha uma anasarca, eno viveria mais de trs. O estudante contava com isto, e dizia-ocom uma sossegada fleuma como se se tratasse da esperanosamorte de um parente desconhecido para onde houvesse de lhevagar a administrao de um vnculo. Pobres pais! A verdade queo fidalgo tinha as pernas inchadas, e prometia no incomodarmuito tempo a sua famlia.

    Passados os cinco meses aprazados, Cristvo de Queirsdesinchou, ao contrrio da Josefa da Laje. Parecia castigo umpouco zombeteiro! O estudante, quando recebeu esta nova com osparabns do cirurgio, foi terra; e, como disse j o minorista,exps ao vigrio o estado melindroso da rapariga e pediu-lhe que osrecebesse. J sabem que o vigrio denunciou ao velho o propsitodo jovem doido que pensava em envergonhar seu pai, no s des-cendente de Bernardo del Crpio, ilustrssimo galego, sobrinho deel-rei D. Afonso, o Casto, mas tambm representante de Ferno deQueirs, castelhano que entrou em Portugal a servir el-rei D. Fer-nando contra o de Castela um renegado da ptria. O fidalgo,quando tal ouviu, mandou selar as mulas dos lacaios e pr aosvarais da liteira a parelha dos ndios machos. O filho recebeuordem de acompanhar seu pai corte, onde no havia corte nessetempo. A surpresa abafou a reaco do moo; mas o velho, em todoprumo da sua soberba, se o filho reagisse, iria sua panplia queera um feixe de montantes e partasanas ferrugentas encostadas aum canto da tulha e seria capaz de lhe meter um ferro de lanano degenerado peito! Assim fizeram sempre Queiroses, os bons,entenda-se; porque h em Portugal outros Queiroses, que no vmde Bernardo del Crpio o qual matou o rei dos Longobardos emItlia , e estes fazem o que lhes parece, porque no so dos bons,nem tm diplomas de assassinos desde o sculo X. 2

    Chegados capital, o solarengo provinciano, sem consultar ofilho, agenciou-lhe noiva entre as mais estremes do sangue germ-nico das Astrias. Isto de esposas, quanto mais brbaras na ori-

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    2 Como agora se est operando em Portugal um renascimento de estudos proveitosos, indico moci-dade a leitura atenta de tudo que entende, com Bernardo del Crpio, e principalmente a Histria ver-dadeira do mesmo em idioma lusitano por Antnio da Silva, mestre de gramtica, Lisboa, 1745, 4..

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    gem, melhores. Quem puder hoje provar, com trinta e seis quartis,que seu trigsimo av era celta, ibero, huno, vascnio, ou gpida,tem barrigadas de orgulho de raa; mas bom ser que tenha dou-tras para a digesto. Os rabes eram inteligentes, civilizados, efinos; porm vo l filtrar em uma neta de Pelgio ou Cid uma gotade sangue muulmano! uma rvore podre, uma genealogia estra-gada; porque pode ser que alguma dessas Urracas, Urtigas ouGelorias antigas passasse pelo harm do amir de Crdova, Al-horr--Ibn-Abdur-rahman-Ath-Thakefi, sujeito que foi muito amado pelamelodia suavssima do seu nome.

    No estava no rol das infelizes senhoras de raa mista a desti-nada esposa de Antnio de Queirs. Era Teles de Meneses, mas dosbons, oriundos de uma D. Ximena, filha de Ordonho 2., que fugiuao pai com um cavaleiro, que a abandonou em um bosque donde amsera foi dar ao stio que hoje Torgueda, na comarca de VilaReal, e a casou com Telo, lavrador do casal de Meneses.3

    Maria Moiss Camilo Castelo Branco19

    3 Os linhagistas contam assim a origem desta ilustre famlia. Do rarssimo Nobilirio manuscrito deDamio de Gis damos o traslado da origem e romntica formao da famlia Meneses e Teles. "OsTeles e Meneses h-se por certeza descenderem de el-rei D. Ordonho II de Leo, pela infanta D.Ximena, a qual, enamorada de um cavaleiro da corte de seu pai, determinou fugir com ele; e, tomandode suas jias e vestidos o que pde, certa noite executaram este intento, tomando-a ele nas ancas doseu cavalo; e, como as terras no eram to povoadas como agora, e havia grandes matas, eles seembrenharam nelas, por fugirem de quem os buscava. O cavaleiro, reconhecendo o mal que tinhafeito, ou por temor ou por fora do fado, com o pretexto que ia buscar mantimento, se foi, e nuncamais tornou. Vendo a dita infanta sua tardana, e conhecendo sua fugida, com muitas lgrimas come-ou a caminhar por aquelas matas com grande risco e trabalho, e no cabo de alguns dias foi ter a umcasal que se chamava Meneses*, onde morava um lavrador que se chamava Telo, com sua mulher, osquais, espantados desta novidade por este seu casal estar metido em uma grande montanha, compa-decidos das lgrimas da hspeda, e agradados da sua grande formosura, a recolheram em sua casa,na qual a infanta, despindo os seus ricos saios, se vestiu de saial, e, ocultando quem era, os ficou ser-vindo como criada, at que, morrendo a mulher deste lavrador, este casou com ela, pensando fazer--lhe nisso esmola. E deste matrimnio tiveram filhos. Dali a muitos anos, andando el-rei D. Ordonhocorrendo a sua terra, j esquecido da sua filha, foi ter quele casal, onde Telo com sua filha morava, eonde o lavrador o agasalhou como pde. A infanta vendo ali seu pai, a toda a pressa fez do brocadodos seus vestidos que ainda guardava dois pelotes a dois filhos que de seu marido tinha, que, pare-cendo-se com ela, eram muito louros e formosos, e logo guisou umas malpassadas que era a maneirade comer de que seu pai se pagava, e nelas deitou um anel que o dito seu pai lhe dera; e, feito istoassim, mandou este guisado pelos filhinhos que com muita graa apresentaram na mesa de el-rei ospratos; o qual, vendo esta novidade, perguntou a Telo que mulher era a que tinha: e, contando-lhe eleo sucesso passado, de como ali tinha vindo aquela mulher, o dito rei se levantou da mesa, logo, e se foionde ela estava, que, prostrada em joelhos com muitas lgrimas, foi recebida de seu pai com grandepiedade e contentamento, e trazendo consigo para a corte a filha, marido e meninos, fez ao genro mui-tas mercs, e dos dois meninos se afirma procederem os Teles e Meneses, formando os ditos apelidosdo lavrador e do casal."

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    Escolhi-te mulher disse Cristvo. ainda tua parentapor Meneses. No herdeira; mas o irmo morgado est hctico, eo segundognito aleijado e incapaz para o matrimnio. Vir elaportanto a herdar os vnculos. preciso que a visites hoje comigo.

    Meu pai respondeu Antnio com respeitosa serenidade ,pode V. S.a dispor da minha vida; mas do meu corao j eu dispus.Ou hei-de casar com uma rapariga de baixa condio a quem pro-meti, ou no casarei nunca.

    O velho ps a mo convulsa nos copos do espadim, arquejoulargo espao, e disse:

    Duvido que voc seja meu filho. Probo-lhe que se assineQueirs de Meneses. Adopte o apelido de algum dos meus lacaios.

    Antnio levantou o rosto e redarguiu: No se ultraja assim a memria de minha me.O velho nutava entre a clera e a vergonha. Estendeu o brao, e

    apontou-lhe a porta, rugindo: Espere as minhas ordens no seu quarto.Ao outro dia, um mandado da regncia ao intendente-geral da

    polcia ordenava a priso do cadete de cavalaria, Antnio de Quei-rs e Meneses, no Limoeiro.

    Maria Moiss Camilo Castelo Branco20

    At aqui o celebrado cronista de el-rei D. Manuel. Se o amigo de Lutero e Erasmo era to verdico his-toriador como genealgico, mui graves contas h-de ter dado a Deus, depois de as c ter dado aoconde da Castanheira que lhe bateu directa e indirectamente, por causa de sua bisav D. MariaPinheira, de Barcelos. Convm saber que o rico-homem Telo Peres, oriundo das Astrias, e quintoneto de D. Fruela II, foi senhor de Meneses, na Navarra, por troca de Malagan que fez com AfonsoVIII, na era de 1217 (ano de Cristo 1179). Meneses era na Navarra, e no em Torgueda nas faldas doMaro. Deste Telo descende D. Afonso Teles que casou, em segundas npcias, com D. Teresa San-ches, filha ilegtima de D. Sancho I e de D. Maria Pais, a Ribeirinha. Desta vergntea que abrolha-ram ao diante flores como Leonor Teles. Quanto ao anel que fazia parte do guisado de Ordonho II,encontra-se memria dele nas armas de todos os Meneses, bons: Cantanhedes ou Marialvas, Tarou-cas ou Penalvas, etc. No se compreende que a fbula da fugitiva filha do rei asturiano seja rejeitadacomo patranha, e nos timbres das armas de Meneses aparea uma figura de mulher de cabelos soltoscom um escudete de ouro e um anel perfilado de vermelho com um rubi engastado. Eis aqui umbonito assunto para os saraus literrios da Academia Real neste Inverno. E, quando estes estudosno valham muito para a histria ptria, so assaz aproveitveis para uma Fauna Lusitana bemmetdica.

    * No termo de Vila Real, freguesia de Torgueda, junto da grande serra do Maro.

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    ** *

    Josefa esperava confiada, mas aflita. No sabia escrever, notinha ningum a quem pedir a esmola de uma carta. A me olhavapara ela com ateno, mas sem desconfiana. Fazia-lhe umas per-guntas da maior naturalidade, e inferia das respostas que a raparigano estava s. O cirurgio da terra, que matava pelo PortugalMdico e pelo Mirandela, receitava-lhe emplastos de ervas de orja-vo e semprnia, fervidas em um quartilho de aguardente. Ao fim dequatro meses, Joo da Laje, que matava o bicho todos os dias, e tocopiosamente como se tivesse no estmago a arca de todas as bestas--feras diluviais, queixou-se rusticamente das sangrias que sofrera opipo. A mulher refilou; e, no apuro da sua indignao, bradou-lhe:

    Ainda eu te veja como est a rapariga! Salvo tal lugar! retrucou. Rebentada te veja eu a ti!O cirurgio continuou at ao quinto ms; depois, sorrindo com

    certa velhacaria, tocou brandamente na face da doente, e disse-lhea meia voz o que quer que fosse muito semelhante ao que umacomadre, pela boca de Gil Vicente, havia dito trs sculos antes aRubena:

    Isto cousa natural,E muito acontecedeira,Se nunca fora outra tal,Dissramos que era mal,Por serdes vs a primeira.

    A vida ntima cheia de passagens ridculas. A gente, queescreve casos tristes, se lhes no joeirasse a parte cmica, noarranjava nunca uma tragdia. Estava ali aquela desgraadamulher sobre as brasas do seu suplcio, e volta dela a bruta vidade seus pais ele a esconder o pipo da aguardente de medronho, ame a pisar a erva semprnia, e a pedir sinceramente ao cu quelhe levasse o marido em uma das suas frequentes borracheiras.

    Josefa j no saa da cama, a fim de evitar que a vissem. Expe-dia gritos de indizvel angstia, estorcia-se em frenesins. Tinhaalanceada a alma pelo tormento da desesperao. Antnio de Quei-rs no chegava!

    Maria Moiss Camilo Castelo Branco21

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    Um dia, porm, uma mulher no conhecida de Maria da Laje,muito velha e bem agraciada de semblante devoto, perguntou-lheno adro, ao sair da missa, como estava a sua Josefa. A lavradeiradisse mal-humorada o que sabia da doena, e perguntou-lhe quemera. A curiosa respondeu que era de alm-Tmega, e viera quelafreguesia por causa de um sonho que tivera. E, dizendo isto, levan-tou os olhos para o cu, e baixou-os logo para a terra com humil-dade de pessoa indigna das mercs do alto.

    Ento que sonhou voc, tiazinha? perguntou Maria da Lajeaconchegando-se da mulher com bastante f.

    Em sua casa lho direi, pois que a sua casa que venho.E deixou cair uma das contas de pau-preto, que, batendo na

    imediata do rosrio, fez o sodo de umas castanhetas.Quando entraram no quinteiro, saa o lavrador da adega, onde

    pela terceira vez fora matar o bicho, aquela hidra de Lerna quebotava cabeas todo o santo dia no bucho hercleo de Joo da Laje.Vendo a companheira da esposa, perguntou-lhe:

    Quem essa criatura, Maria? Que te importa? Se havias de ir missa, ficaste a beber, bor-

    racho! Entre c pra dentro, santinha. Guarde-o Deus, senhor Joo disse a hspeda. Vossemec no a Rosria, a mulher do Manuel Tocha,

    caseiro do senhor sargento-mor da Tempor? perguntou Joo,enfitando-se nela.

    Sou, sim senhor. Valha-a o demo! Custou-me a conhec-la! Voc vem assim a

    modo de quem anda a pedir pra uma missa! Se quer beber, entrec. Voc parece esmaleitada, mulher!

    Deus lhe d sade; agora no preciso. Vou c dentro conver-sar com a sua companheira conta dumas meadas.

    Meadas? Vocs l as arranjam... disse ironicamente Joo, aoque a mulher retorquiu:

    Vai-te deitar.Ele no se ofendeu, porque, em verdade, foi-se deitar, como

    quase sempre ia, nos fenos do palheiro, onde tinha vises comonunca tiveram os narcotizados califas de Damasco, ressupinos emalmofadas da Prsia...

    Entretanto, a mulher de Manuel Tocha revelava me de Josefaque a sua filha estava doente de morte, se lhe no acudissem...

    Maria Moiss Camilo Castelo Branco22

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    Tenho-lhe posto cataprasma de orjavo e semprnia, h qua-tro meses a eito todas as noites atalhou Maria da Laje.

    Isso no lhe faz nada, o mesmo que p-las na barrigadaquela cadela e apontava para uma perdigueira que uivava,ouvindo tocar ao longe uma requinta.

    Raios partam a cadela! Isto agouro! exclamou a dona dacasa, remessando-lhe um canhoto s pernas com grande clera.

    Sua filha est enfeitiada, tia Maria prosseguiu a outra. Eu j a levei ao Sr. So Bartolomeu contraveio Maria. O santinho tira o co tinhoso, mas no desfaz os bruxedos

    replicou Rosria Tocha. Vamos ver se ainda lhe podemos valer. Deu-lhe pra inchar! observou a me da enfeitiada. No quele isso quando o feitio adrega de pegar dostruo

    explicou suficientemente Rosria. Vejam vocs! volveu a outra assombrada, cruzando os bra-

    os. Quem ma tolheu? Isso agora! e olhou para o tecto. Vamos. Leve-me onde a

    ela, que eu preciso requer-la. Aqui levo as arrelquias pra lhe dei-tar ao pescoo.

    E mostrou dependuradas de um negalho surrado e sebceo asseguintes, entre outras coisas cabalsticas: duas figas de azeviche,duas pontas de vaca loira, um canudinho de lato como um agu-lheiro, outro como um dedal, o sino-saimo aberto em placa dechumbo. Dizia ela que os canudos continham ossos das sete irmssantas naturais de Basto, de S. Cucufate de Braga, de S. Pascsio,bracarense tambm, e de S. Rosendo, do Porto, cidade que ainda nodeu outro santo, nem promete. E, exibidas as relquias, acrescentou:

    Preciso ficar sozinha com a doente, e vossemec enquanto eul estiver no me corte o ar, entende?

    Olhe que eu no sei o que vossemec diz, santinha, l disso decortar o ar, salvo seja.

    No abra a porta do quarto em que a tolhida estiver comigo,percebe agora?

    Ah! Quant isso, v descansada. Feche-se por dentro nosobrado, que ningum l vai. Venha da com Deus.

    E, encaminhando a suposta benzedeira ao sobrado alto em queestava a filha, entrou com ela e disse a Josefa:

    Aqui te trago a sade, rapariga! Mal haja quem te meteu nocorpo o feitio! Tantos diabos o levem...

    Maria Moiss Camilo Castelo Branco23

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    Credo! Credo! atalhou a benzedeira. V vossemec rezarsete salve-rainhas, e no fale no berzabum. Nada de chamar quemest quedo.

    ** *

    Fechada com Josefa, Rosria escutou fechadura os passos daoutra que descia; e, abeirando-se doente assustada pela inopi-nada visita, disse-lhe com o maior e mais desbeato desempeno:

    Eu venho aqui com um recado do fidalgo novo de Cimo deVila.

    Ele onde est? exclamou Josefa em nsias de alegria. O senhor Antoninho est preso em Lisboa. Ai, meu Deus! Preso! No barregue, fale baixo, que, se nos ouvem, l vai tudo com

    a breca. Eu lhe conto, Josefinha. O fidalgo escreveu de Lisboa aofilho do meu amo, que o senhor sargento-mor da Tempor, adizer-lhe que o pai o metera em ferros de el-rei porque ele no qui-sera casar com uma menina de l, e diz que o no tira da cadeiaenquanto ele teimar que no casa. Olhe que diabo de homem. Deusme perdoe! E vai ao depois o Sr. Antoninho escreveu ao meu patronovo a contar-lhe isto e aquilo e aqueloutro, praqui, pracol, eescreveu-lhe ento a dizer-lhe que a Sr.a Josefinha estava nesseestado, e coisas e tal, como o outro que diz, que em bom pano caiuma ndoa. E vai depois o meu amo foi onde a mim, e contou-meresvs tudo, e at me leu a carta, que as bagadas me caam quatroa quatro por esta cara abaixo (e alimpava a cara enxuta ao aven-tal). filha, as mulheres nasceram para os trabalhos! No chore,criatura, que eu vou dizer-lhe ao que venho e vossemec vai ficaralegre como uma levandisca. O meu patro mandou-me chamar,leu-me a carta, e disse-me que viesse eu falar com vossemec, cus-tasse o que custasse, e lhe dissesse que fugisse quanto antes decasa e fosse ter quinta do Enxertado, que do Sr. Antoninho, e lseria recolhida pelo feitor at ele vir de Lisboa. Ora aqui tem.

    Pois sim exclamou Josefa com exultao e profundamente aba-lada. Eu fujo amanh, porque tenho medo que minha me me mate,se desconfia. O pior que eu no sei o caminho para o Enxertado.

    Maria Moiss Camilo Castelo Branco24

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    No tem que saber...E explicou-lhe o trilho que devia seguir passadas as poldras do

    Tmega; mas, para se no enganar, disse que mandaria o rapaz dascabras esper-la na encruzilhada do Mato, ao p da caixa das almi-nhas, e no descobrisse ela quem era ao rapaz, e que lhe dissessesomente: "anda l".

    Rosria embiocou o rosto no leno, enfiou as camndulas nopulso esquerdo, e desceu as escadas. Maria da Laje saiu-lhe daporta da cozinha com a boca aberta e cheia de interrogaes:

    Ento? o que eu lhe dizia, criatura respondeu Rosria. Pegou-

    -lhe deveras; mas tem cura. V v-la que j no parece a mesma;tem outro doairo na cara, est com uma pele de rosto que pareceuma rosa, benza-a Deus!

    Pois ela szinha e escorreita como no h muitas; e entovirtude? Isso que nenhuma, nem na mais pintada! As outras pora na freguesia todas tm rapazes que lhe rentam, e algumas...sabe Deus o que elas fazem. Cala-te boca! (e, estendendo os bei-os, esbofeteava-os). A minha Josefa nunca tolejou tanto comoisto. Andaram a atrs dela os fidalgos de Agunchos, a mais osfilhos do senhor capito-mor, Deus lhe fale na alma, que um quedizem que anda a penar na Agra; vossemec h-de ter ouvidodizer...

    Sim, sim, Deus o despene! Pois verdade, e a rapariga teve bons casamentos falados, e

    l quem na tirasse das suas devoes, de ir lavar ao rio e de guar-dar as ovelhas era matarem-na. Pois olhe que esses feitios soinvejas das desavergonhadas que no podiam levar pacincia avirtude da minha Josefa. Havia de ser a brejeira da Rosa da Fontee aquela tinhosa da Bernarda do Manel Z! Cala-te, boca! Enfim,vossemec agora h-de mastigar um bocado de presunto para beberuma pinga do velho.

    Deus lho acrescente, Sr. Maria: eu jejuo para ganhar o jubi-leu. Vou-me indo que so horas. Adeusinho, se for preciso que eu ctorne, no tem mais que mandar-mo dizer.

    Maria galgou as escadas, e foi topar a filha sentada na cama adesengrenhar os seus loiros e bastos cabelos com uns meneios lar-gos de braos e um atirar de tranas para trs que parecia umaalegre amante a pentear-se para ver passar o noivo amantssimo.

    Maria Moiss Camilo Castelo Branco25

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    Ora ainda bem! exclamou a risonha velhota. Foi o meupadre Santo Antnio que trouxe c a santa da mulher! Vais-teprantar a p, rapariga? H cinco semanas, f-las amanh, que nosais desse ninho! Queres tu comer? Vou-te buscar uma tigela decaldo, uma posta de presunto e um pichel de vinho. Bebe-lhe,cachopa, e mal hajam as invejosas que te fizeram a mandinga.Ho-de ro-la! Sabes quem foi?

    Quem foi o qu, senhora me? Quem te fez o feitio? Ningum foi seno a Bernarda do

    Manel Z que te veio aqui pedir um dia lembras-te? o teu jaquamarelo com botes azuis. Foi para te fazer o feitio no jaqu.

    gora foi, coitada da pobre rapariga que to boa! contra-disse Josefa.

    Ento quem foi? interpelou a me com azedume. Quemfoi?

    Eu sei l, senhora me! Quem foi o qu? A mulher que aqui esteve contigo no te disse que era feitia-

    ria o teu mal?Josefa, caindo em si, respondeu balbuciante: Ah! sim, isso disse ela, mas... Mas qu? No foi outra seno aquela tsica que no quer que

    haja outra mais bonita na freguesia. Pes-te a p ou no?Josefa, com o pente na mo direita descada e inerte, e a cabea

    encostada mo esquerda, sentia-se como cansada, esvada dealento, e esmorecida como se o sbito incndio de felicidade fosseum lampejo de estopas que se inflamam e nem falhas deixam. que ela nesse momento sentira uma dor fsica, desconhecida, noforte, mas acompanhada de um calefrio. A me, vendo-a mudar decor, atribuiu o desmaio fraqueza, e correu a trazer-lhe uma fartamalga de caldo fumegando por entre uma floresta de couvesrecheadas de feijes vermelhos. Quando entrou no quarto, viu afilha fora da cama, vestindo as saias com agitao febril, e cha-mando Jesus, com os dentes cerrados.

    Que tens tu, mulher? exclamou a me. Estou aflita, muito aflita! Jesus, valei-me! dizia Josefa entre

    gemidos, sentando-se, erguendo-se, e fazendo at uns gestos dianteda me como se quisesse ajoelhar-se-lhe com as mos erguidas.

    Que tens, mulher? bradava a me, seguindo-a espavoridanaqueles trejeitos frenticos. Di-te alguma coisa?

    Maria Moiss Camilo Castelo Branco26

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    Tenho uma dor muito grande... muito grande...E, como se levasse as mos aos quadris no mpeto da dor

    aguda, a me quedou-se como estupefacta a olhar para ela. Nesteinstante fez-se-lhe luz na alma a um claro infernal. Aqueles gritose contores recordaram-lhe que havia sido me: viu, como nuncavira, os sinais exteriores do crime nem sonhado; os modos suplican-tes da filha confessavam o crime.

    Fez-se uma desfigurao improvisa e medonha nas feies deMaria da Laje, quando, crescendo para a filha, com as mos finca-das nas fontes, bramiu:

    Tu que tens? Tu que fizeste, amaldioada?Josefa ajoelhou-se com as mos no rosto lavado em lgrimas, e

    murmurou: Deixe-me chorar, minha me, que eu noite vou-me embora. Vais-te embora, malvada? Ento pra onde vais tu? Morta te

    veja eu antes de noite! Pra onde queres tu ir? Quem foi que tebotou a perder? Respondes, mulher perdida? Olha que se me gritasde modo que algum oia, dou-te com o olho de uma enxada nacabea! Pois tu! Pois tu!... Ai que eu endoideo! ai que eu endoideo!...

    E, com as mos na cabea, partiu a fugir escada abaixo, e foisumir-se no palheiro, dando gritos com a cabea, metida no fenopara os abafar.

    Entretanto, Joo da Laje, entrando cozinha para jantar e novendo ningum, foi bater porta da filha.

    Que de tua me, rapariga? perguntou de fora, porque alngua da chave estava corrida.

    No est aqui, senhor pai. Hoje no se come? C vou ver o que est na panela: quando

    ela vier, diz-lhe que eu c marranjei.E, de feito, extraindo do pote um naco do toucinho com que fez

    uma enorme e pingue sanduche entre duas talhadas de broa, foipara a adega, sentou-se ao p da cuba e murmurou: "Aguenta-te,Joo, que tua me no faz outro."

    Este homem tinha em si algumas fascas do gnio de Digenes,um tudo-nada do esprito de Epicuro, e o mais era esprito devinho. Viveu assim largos anos, reformando-se sempre para pior, emorreu aos 80, como l dizem, coberto de musgo, que era sarrointerior que lhe porejava na casca. Com alguma sentimentalidadeno corao e frugalidade no estmago, morreria na flor dos anos.

    Maria Moiss Camilo Castelo Branco27

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    ** *

    Com toda a certeza, Maria da Laje sofrera punhalada que rasgaprofundas fibras em peitos de mes honradas. Era dura de condi-o, tinha o orgulho selvagem da honra, compreendia barbara-mente o dever da mulher, e julgava-se com direito a murmurar detodas as frgeis, sem discriminar as infelizes. O seu dio s mestolerantes com os desatinos das filhas era entranhado, convicto eimplacvel. Da caridade crist s entendia o preceito da esmola. Oconfessor no lhe ensinara outra interpretao da terceira virtudeteologal. No perdoava cegueiras de amor porque no amaranunca. Se imaginava que a filha podia desvairar uma vez, sentianas mos as crispaes nervosas de quem estrangula um pescoo.Como era deslinguada e mordacssima nas fraquezas alheias,impunha tacitamente filha o dever de a sustentar na sua soberbainexorvel. Uma ligeira camada de verniz social no sei o que fariadesta mulher. Ainda um destes dias contavam as gazetas de umailustre dama parisiense que matou a ferro frio uma neta que cons-purcara a sua raa em amores abjectos. Em tempos tenebrosos, osmosteiros portugueses eram o drago com os colmilhos abertospara esta espcie de vtimas que os pais lhe atiravam: se o cubculoclaustral as no amordaava, havia o tronco, a enxerga e a fome;depois a sepultura; mas o braso limpo. Se h inverosimilhana nacrueldade das mes como Maria da Laje l onde so raras as quepodem ler s filhas o livro da sua vida honesta.

    Ao entardecer daquele dia de Agosto, a me de Josefa, segundoo marido contou ao vigrio na cangosta do Estvo, foi levada embraos para a cama; e, naquele lance, Joo, ouvindo dizer que opegureiro perdera uma rs, deixou a mulher a escabujar no catre, efoi interpelar o rapazinho, reclamando-lhe a cabra ou os fgados.

    Ao mesmo tempo, Josefa era mais um dos inumerveis exem-plos da fora prodigiosa da me, quando a soledade e o desamparoa obrigam a socorrer-se de si mesma. Ningum lhe ouviu os ltimosgritos dela nem os primeiros vagidos da criana. Quem ler, em umtratado de obstetrcia, as regras, conselhos e desvelos que a cinciaagrupou volta de uma purpera, e souber da inutilidade da arte edos preceitos, quando o infortnio ou o acaso interceptam o menorauxlio me, nivelando-a nesse lance s espcies irracionais, con-

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    vence-se que a mulher do perodo quaternrio (vou assim longeporque na Bblia se conhecem de nome as parteiras Sfora e Fua)no carecia de mais assistncia que a loba das cavernas. E observatambm que os encarecimentos e demasias da arte a enfraquece-ram e melindraram, privando-a da confiana pessoal, da conscin-cia da fora prpria e de algum modo estorvando as influnciasdirectas da natureza.

    Josefa, quando descia de manso a escada do seu quarto, ampa-rando-se parede, trazia debaixo do brao um bero com o filho;era o mesmo bero em que a me a criara, uma canastrinha deverga urdida to densa e solidamente, e com o fundo fasquiado demadeira to impermevel, que poderia estancar a gua sem tran-sudar. Um saiote de baeta dobrado envolvia a criana, deitadasobre a velha enxerga de serradura.

    A me era robusta; sentia-se esvada, mas contava consigo, setomasse algum alimento. Na cozinha no estava ningum, quandoela atravessou de passagem para o quinteiro. Olhou para a lareira aver se acharia um pouco de caldo. No o queria para si; era para oconverter no leite da sua filha. Pousou o bero no escano; ia levan-tar o testo do pcaro; mas neste instante ouviu os brados da me,cuja cama era na tulha, no mesmo plano da cozinha. Estremeceu,cuidando que fosse apanhada; pegou da criana, e fugiu, lanando asaia de pano azul pela cabea, e apertando o bero contra o peito.

    O seu destino era o abrigo que o pai de sua filha lhe dera. Daparte de alm-Tmega, logo ourela do rio, pediria que a fossemguiar no mau caminho da grande lgua que a distanciava da quintado Enxertado. Lembrou-se de Jos da Mnica, o pastorinho que lheera muito afeioado; mas, ao atravessar o quinteiro, ouviu a voz dopai a praguejar contra o rapaz, que perdera a cabra. A Brites doEir reconheceu-a a saltar para o campo da Lagoa; o pescador dachumbeira ouviu-a chorar na cangosta do Estvo, quando ama-mentava a criana, e lhe parecia que a filha, no achando leite, selhe estirava hirta nos braos como morta. Atormentavam-na doresoutra vez, e sentia-se torvada, desfalecida e sem foras para trans-por as poldras, que no estavam perto. Havia de atravessar o erva-al que o moleiro e o pastor percorreram um quarto de hora depois.Quando ouviu vozes, ao longe, no alto da barroca, ergueu-se camba-leando, saltou a vala, invocando o auxlio das almas benditas. Erao Lus moleiro que vinha descendo com o rapaz. Ao avistar as pol-

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    dras que alvejavam pudas e resvaladias ao lume da gua, tevevertigens, e disse entre si: "Eu vou morrer." Ps o bero cabea,esfregou os olhos turvos de pavor, e esperou que as pancadas docorao sossegassem. Depois, benzendo-se, pisou com firmeza asquatro primeiras pedras; mas da em diante ia como cega; a cor-rente parecia-lhe caudal e negra. Quis sentar-se em uma das pol-dras; e, na precipitao com que o fez para no cair, escorregou aorio. A gua era pouca, e a queda de nenhum perigo; mas o berocaiu na veia da corrente, que era bastante forte para o derivar.Quando ela estendeu o brao j o no alcanou. Arremessou-seento ao rio; mas os altos choupos da margem, encobrindo a baaclaridade das estrelas, escureceram o bero. Neste lance, perdido otino, a desgraada cortou de travs para a margem, onde um clarode areia se lhe afigurou o bero. Quando a chegou, caiu; e, naqueda, agarrou-se ao esgalho do salgueiro em que o pastor e o Lusmoleiro a encontraram moribunda.

    Sabem os sucessos posteriores, desde que ela expirou nos bra-os do veterano at que o escrivo do juiz ordinrio nos deu o exem-plo da dissecao daquele cadver. Viram que Maria da Laje, rom-pendo sozinha pelo escuro da noite, quando ouviu dizer que a filhase afogara, foi me naquela j tardia exploso de angstia e amor.O remorso pde mais com ela que a selvajaria da sua virtude; masainda viveu seis anos com reveses de demncia, e morreu em casados seus irmos em Santa Maria de Covas de Barroso, repelindo omarido desde que lhe ouvira dizer: "A rapariga faz-me falta porqueno tenho quem me governe a casa."

    ** *

    Antnio de Queirs soube no Limoeiro, por carta do seu amigoda Tempor, que Josefa de Santo Aleixo se suicidara no mesmo diaem que ele conseguira enviar-lhe o aviso para a fuga. O informador,espantado do sucesso, atribua demncia repentina a resoluoda infeliz que ainda na manh desse dia se mostrara contentssimacom a deliberao da fugida para a quinta do Enxertado.

    O vigrio de Santa Marinha tambm avisou Cristvo Queirsdo suicdio da rapariga. O fidalgo conferenciou com a regncia, e o

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    intendente-geral da polcia mandou passar alvar de soltura aocadete de cavalaria.

    Vamos para a provncia, se no quer casar disse Cristvoao filho.

    Nem caso nem vou para a provncia, meu pai respondeuAntnio de Queirs.

    Tornar para o Limoeiro. Irei j enquanto l tenho a minha bagagem. Para onde quer ir? Para o Rio de Janeiro: seguirei l a vida militar. Sabe que o sucessor dos meus vnculos? Disponha V. S.a deles se quer e se pode; a mim me bastariam

    a felicidade, a mocidade e a alegria que me matou. Com quem cuida voc que fala? interpelou o fidalgo com

    Bernardo del Crpio s cavaleiras que lhe esporeava as ilhargascom o direito de av. Afuzilavam-lhe os olhos, como o seu antepas-sado quando matou o rei dos Longobardos em Itlia. Com quemcuida voc que fala? repetiu o convulso velho.

    Com V. S.a, um homem que eu sinceramente temo, porquetem a minha liberdade e o Limoeiro sua disposio.

    No meu filho! V para o Brasil, v para onde quiser. Suame teve cinco mil cruzados de dote. Dessa sei eu que voc filho.Receb-los- hoje, e amanh partir.

    FIM DA PRIMEIRA PARTE

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    ** *

    Francisco Bragadas, o timorato pescador de chumbeira, despe-dindo-se do moleiro, com certas apreenses agoirentas, teria dadotrinta passos rio abaixo com a rede j enrolada, quando ouviu norecanto escuro ou angrazinha da corrente, que espraiava para den-tro de um algar, o choro abafado de uma criana. primeiraesfriou de medo; mas esperou a reaco do bom senso. P ante p,acercou-se do lugar sombrio de onde vinha a toada incessantedaquele rspido chorar. Ele, que era pai de muitos pequenitos, nopodia confundir os vagidos de um menino com os guinchos das des-dentadas bruxas, as quais, por via de regra, costumam cacarejarcasquinadas de riso quando lavam nas claras guas das ribeiras osseus indecentes arcaboios.

    Estendendo a mo, tocou na face tpida da criana. O beroquedara-se enleado na ramagem de um salgueiro vergado pelopeso de uma rede ou pardelho, como l dizem, que dali, atado nele,atravessava para a margem da nsua, um bosque de chouposassim chamado. As bias arfadas pela corrente chofravam nosflancos do bero. Francisco Bragadas exclamou levantando acanastrinha:

    Oh! Pobre menino! Atiraram-te ao rio! Ainda eu mais vereineste mundo! E, apalpando-lhe o corpo por baixo do saiote, dissemaravilhado: E nem sequer est hmido! Isto milagre!

    Maria Moiss Camilo Castelo Branco32pg.

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    Segunda Parte

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    Como a chumbeira lhe pesava, escondeu-a em uma lura dovalado, e deitou a correr para casa, com o bero debaixo do brao.

    A mulher de Bernardo, sentada porta da cozinha, embalavauma filha com o p, enquanto amamentava a mais nova.

    C tens mais um, mulher! disse ele, quando a avistou. Um qu, homem? Um criano, que pesquei no rio. Tu ests tolo, Bernardo? Aqui o tens tal qual o topei engasgalhado num amieiro, bero

    e tudo. Olha que desgraa, Isabel! A mulher benzeu-se; foi buscar a candeia; convenceu-se que era

    uma criana viva, ps as mos, olhou para o cu com profundamgoa, e exclamou:

    homem, o mundo est a acabar! D-lhe o peito quanto antes, seno o mundo acaba-se para

    ele. Aqui to deixo, que eu vou contar aos fidalgos este caso. Ai! exclamou ela examinando a criana uma menina e

    ainda no tem cortada a invide!Queria dizer que ainda no estava ligado o cordo umbilical.

    Isabel tinha a cincia prtica da me de onze filhos, todos nascidossem mais auxlio que o do seu homem e da sua serena coragemnaquele acto. Confessava-se na vspera, comungava de madru-gada, e depois, com o maior sossego da alma e muita conformidadecom as dores, matava uma galinha e dizia ao marido:

    Vamos a isto, Bernardo.Depois, l prestava os cuidados criana, ela mesma a lavava,

    no na queria enfaixada; dava-lhe aos braos toda a liberdade, todoo alento aos pulmes. Era como as mulheres de Israel, de quem asparteiras egipcacas diziam ao Fara: As mulheres de hebreus noso como as dos egpcios; porque elas mesmas se sabem partejar, e,antes de ns chegarmos, parem. (Bblia, xodo, cap. 1., v. 19). E,dois dias depois, mandava o homem para a lavoura, e ela ia para alabutao da cozinha, dos cevados, da maceira, com umas coresrosadas que parecia uma noiva na vspera de ser esposa.

    O caseiro atravessou um campo de hortas e pomares naextrema do qual estava a casa nobre, onde os fidalgos de SantaEullia costumavam passar o Estio para se banharem no Tmega.

    Esta famlia era do Arco de Balhe, gente nobre e antiga. Duassenhoras de outros tempos com seu irmo desembargador aposentado,

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    homem erudito em histria ptria, sabendo de cor a Monarquia deBrito. Estava hspede na casa o cnego de Braga Joo Correia Bote-lho; ainda frescal, grave, falava muito no Pentateuco, e asseverava queo primeiro e mais verdico historiador do gnero humano fora Moiss asserto que ningum lhe contestava. D. Maria Tibrcia e D. MariaFilipa eram solteiras. Passavam dos cinquenta, idade em que o sexoprincipia a descaracterizar-se, perodo equvoco em que a mulher, seno tem filhos que lhe afirmem uma serventia retrospectiva, pareceque foi sempre assim, uma coisa melanclica, embalsamada, e presa bisca sueca pelo esprito e caixa do esturrinho de 1813 pelo nariz.

    Haviam sido feitas de modo e feitio pouco vulgar, mas muitohonestas, posto que no antipatizassem com Cupido. Gostavam dealguns sujeitos que fingiram ignorar o sentimento involuntrio queacendiam. Elas tinham fogo latente no peito; mas, por causa da mcara que possuam, tornaram sagrado aquele fogo de que elas mes-mas eram as vestais. Para estas senhoras no tinham significaoestas palavras do padre Manuel Bernardes: Mui ngremes e costaarriba so as veredas da castidade! Eram castas estas duas irmscomo as melancias so frescas e os tremoos sensabores: era oseu feitio e a sua natureza. Na folha de inventrio cabia a cadauma dez mil cruzados; porm, nunca exigiram quantia notvel deseu irmo, senhor de grandes prazos, o doutor Teotnio de Valada-res, que tambm era solteiro, mas menos casto que as manas. E eraisso no pequeno desgosto para elas. O mano doutor tinha servidolugares da magistratura, desde juiz de fora at corregedor, emvrias comarcas, e por todas elas deixara prole ilegtima. Umasfilhas eram freiras franciscanas, outras eram mes; alguns filhosseguiam as letras, outros as armas; tinha filhos para todos os of-cios e artes. Era o D. Sancho povoador de seis comarcas, maspovoador de sua lavra, moto prprio e propagao pessoal.

    ** *

    Quando o caseiro, a deitar os bofes pela boca, apareceu a dar anotcia do achado da criana no Tmega, estavam as senhoras e maiso cnego e o irmo a jogar a sueca. Largaram as cartas a um tempo.O cnego ergueu os culos de tartaruga para a testa, e exclamou:

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    Parece um caso bblico! H factos anlogos na histria da Lusitnia observou o desem-

    bargador, recordando-se.Enquanto os dois pilares da histria sagrada e profana porfia-

    vam em erudies respectivas ao caso, D. Maria Tibrcia disse aoouvido de D. Maria Filipa:

    Olha que isto marosca, mana!... Marosca? Sim. Deixemo-nos de tretas... A criana filha do mano Teotnio. Credo! Tu que dizes, mana Tibrcia? O mano doutor no mandava

    atirar ao rio a criana... Isso sei eu; mas arranjava esta comdia com o caseiro. O Bra-

    gadas vem ensaiado por ele, e talvez pelo cnego. Eu sei! duvidou a outra. O mano Teotnio no precisava

    de estar com estas endrminas... E quem h-de ser a me? Faltam elas por a... necessrio disse o cnego Botelho baptizar a criana ama-

    nh, que no v ela morrer, que o mais natural. Madrinha h-deser uma de vossas senhorias, minhas senhoras; padrinho h-de sero senhor desembargador.

    Prontamente! anuiu o doutor Teotnio. Vs? No ele o pai disse D. Maria Filipa irm a meia

    voz. Ser ele o cnego? redarguiu D. Maria Tibrcia. No sejas m lngua! Olha quem! Coitado do homem... Ento qual madrinha? perguntou o padre. Pode ser a mana Filipa disse a outra. Sero vossas senhorias ambas, porque madrinhas tm lugar

    de mes, ou mezinhas, que o diminutivo de madres, mes. Matercula, de mater acrescentou conspicuamente o doutor. Isso confirmou o cnego, enquanto as duas irms estavam a

    ver se percebiam o modo como eram mes por um figurado esforode latinidade.

    E na qualidade de mes substitutas que o sacramento lhesconfere, visto que a recm-nascida no tem me conhecida, tem deficar a criana a cargo de seus padrinhos, pois que o Francisco Bra-gadas tem onze filhos... acrescentou o cnego.

    Sero doze atalhou o agricultor mas, se vossas senhoriastomarem conta da enjeitadinha, boa esmola lhe fazem.

    Maria Moiss Camilo Castelo Branco35

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    Sim, Francisco disse o desembargador , tomaremos contada enjeitada. Amanh iremos a S. Salvador baptiz-la.

    O caseiro saiu alegre, a pensar que Deus lhe olharia pelos seuspequenos, em paga de ele acudir quela criana que, depois de bap-tizada, se morresse, j teria asas que a levantassem at ao paraso.Ele no era telogo, nem conhecia o limbo.

    Como h-de ela chamar-se? perguntou o cnego. Maria, j se v respondeu D. Tibrcia. A mana Maria. Bem sei, minha senhora; mas h-de acrescentar-se-lhe um

    sobrenome indicativo da circunstncia em que foi encontrada, numbero sobre o rio. Muito bem sabe o senhor desembargador o que aBblia refere. O mpio fara mandara matar as crianas do sexomasculino, dizendo: Lanai ao rio todo o que nascer macho, e noreserveis seno as fmeas.

    Sim conveio o desembargador vai o cnego contar-nos ocaso de Moiss.

    Justamente, Moiss foi achado no rio, e vinha flor da cor-rente deitado num bero. Parecia-me, portanto, que a menina sechamasse Maria Moiss, em comemorao de to estranho sucesso.

    E por que no h-de chamar-se Maria bidis? perguntou odoutor.

    bidis?! disse o padre, invocando a memria. Que issode bidis?!

    um caso semelhante da histria portuguesa, senhor cnego.Leia, leia o meu Bernardo de Brito. No lhe tenho eu dito cem milvezes que a nossa histria um tesouro de ricos acontecimentosaplicveis filosoficamente a tudo quanto h mais extraordinrio?!Eu lhe conto de memria: e, se ela me falhar, irei buscar o tomo Ida Monarquia Lusitana que livro que nunca me larga. Etomando do esturrinho de D. Tibrcia, continuou com nfase: Grgoris, rei da Lusitnia, no ano 2806 da criao do mundo, foi oinventor do mel.

    O cnego sorriu-se. O senhor ri-se? acudiu o doutor. Eu cuidei que o inventor do mel houvesse sido o inventor das

    abelhas explicou o padre. Essa no me parece de homem que l! Esse casaco que o

    senhor tem vestido quem o inventou? Quem que inventou os casa-cos, pergunta a minha curiosidade.

    Maria Moiss Camilo Castelo Branco36

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    Eu no sei. Se o cnego quer que o inventor do mel haja sido o inventor

    das abelhas, responda que o inventor dos casacos foi o inventor doscarneiros que do a l dos estofos.

    Tem razo conveio ironicamente o cnego. Vamos hist-ria de Grgoris.

    Que por inventar o mel se chamou o Melcola. Meli e colo: no o inventou, cultivou-o: so coisas diversas

    reguingou o padre. Inventou, de inventu eu acho. Achou-o. Ai! Que fazem sono gente com a seca dos latinrios!... ata-

    lhou D. Maria Filipa. V, mano, conte l a histria. melhor obtemperou o hspede. Eu no interrompo mais

    seu mano, minhas senhoras. Interrompa quanto quiser, que eu c estou. O rei da Lusitnia

    Grgoris teve uma filha que se apaixonou por um homem de baixaextraco. O que denunciou estes amores foi, diz Bernardo deBrito, em uma palavra de cunho portugus de lei, foi a emprenhi-do.

    Credo! Que palavra! exclamou com engulho D. Maria Tibr-cia.

    No parece palavra de pessoa eclesistica! Notou a outrasenhora no menos escandalizada.

    O mano Teotnio, como tinha piscado o olho direito ao cnego,ria-se; e o cnego, com a maior gravidade, disse:

    Minhas senhoras, os antigos faziam as coisas e diziam-nas;hoje em dia a civilidade no permite diz-las. Ande l com a filhade Grgoris, senhor desembargador.

    Deu ela luz um menino, que o av deitou s feras; e, comoas feras o no comessem, atirou-o ao Tejo. Foi o menino encontradono stio que hoje chamam Santarm; e, como quer que uma coralhe desse o primeiro leite, chamou-se o menino bidis, e da veiochamar-se ao lugar Esca Abis (manjar de bidis), e, corrupto, Sca-labis, etc.

    Tudo isso me parecem vocbulos corruptos e interpretaescorruptssimas objectou o cnego Botelho e, ainda que as enten-desse, fbulas de Brito no me engodam. Esse frade, se no inven-tou o mel como Grgoris, inventou Laimundus, e Mestre Menegaldoe Pedro Aldio, que existiram tanto neste mundo como o tal bidis.

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    Enfim, senhor doutor Teotnio de Valadares, permita-me que eurepugne a que a enjeitada tenha um sobrenome procurado nafbula.4

    ** *

    Quando os sinos de S. Salvador festejavam com trs repiques obaptizado de Maria Moiss, os sinos de S. Aleixo dobravam a fina-dos. A criana saa da pia baptismal, ao mesmo tempo que o esquifeda me, posto no lajedo da igreja, entre quatro crios, era respon-sado por alguns clrigos que franziam os narizes ofendidos dosmiasmas da carne podre. A opinio dos padres e dos assistentes aoofcio era que a suicida praticara aquele crime porque devia terchagas de lepra que a corroam. O vigrio consentia que a enterras-sem em sagrado, porque a moribunda, segundo o testemunho domoleiro, pedira fervorosamente a confisso.

    Quando a famlia de Santa Eullia ia a caminho de casa com aafilhada, o cnego, ouvindo alm-Tmega o tanger a finados, disse:

    Uns nascem e outros morrem... No saberei eu dizer quaisso os mais felizes...

    Eu c por mim antes queria nascer que morrer disse D. Maria Tibrcia com a energia explosiva dos dizeres sentenciosose finos.

    Conversaram a respeito da enjeitada, at toparem um homemde Santo Aleixo a quem perguntaram quem l morrera. Contou eleque se deitara ao rio a filha do Joo da Laje.

    A Josefa? perguntou a Isabel, a mulher do Bragadas, quelevava a menina. Voc que me diz, homem? A Josefa, que era avirtude em carne e osso! E ento bonita, fidalgas? Faz pr Semana

    Maria Moiss Camilo Castelo Branco38

    4 O desembargador entupiu; mas eu no me calaria s razes do cnego, nem s de Joo Pedro Ribeiro,nem s de Schaefer, nem s dos senhores A. Herculano, Hubner e Pinheiro Chagas. Creio em Ber-nardo de Brito como nos Lunrios Perptuos e nos Discursos da Coroa, desde que li na Monarch.Lusi. t. 1., pg. mihi 109, estas linhas que so do meu bernardo e mestre, as quais encerram um pro-grama de lealdade que s pode ceder lisura do manifesto de um deputado garraio: O historiador quepresume de verdadeiro e quer autoridade em suas coisas, mais seguro lhe ficar falto por escrupulosoque dizer muito com perigo do seu crdito. o mais que podia dizer Hallan, Herder, Martnez Marina,Niebuhr ou Thierry.

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    Santa dois anos que ela foi de Madanela na procisso do enterro.Ai, senhoras, que eu no quero que haja mais lindo anjo do cu!

    Por que se matou ela? perguntou o desembargador. Saber que at esta manh no se dizia nada ao certo. Uns

    diziam que ela no podia aturar o pai que, com licena de V. S.as, um bbedo.

    Eu dou licena disse o cnego rindo. Outros prosseguiu o informador dizem que lhe subira o

    flato ao miolo; mas o que por l corria agora que ela... Enfim,morreu, acabou-se... Deus l sabe.

    Mas que que dizem? instou o doutor. Enfim, V. S.a manda... O que dizem que a pelo Vero ia por

    l um fidalgo... O Sr. Antoninho de Cimo de Vila... No queremos saber disso... Misrias, misrias... Vamos

    embora atalhou D. Maria Tibrcia. E abandonou-a? perguntou o cnego. Nada; o que dizem que o fidalgo velho meteu, conta dela, o

    filho no Limoeiro, e ela ento, isto o que dizem, atirou-se ao rio.Eu digo o que ouvi, que eu no sei nada... Sim, eu no sei se istoque dizem se assim nem se no . Deus l sabe.

    O desembargador foi discorrendo acerca da corrupo dos cos-tumes, que atribuiu a Voltaire, a Rousseau e a Helvetius, posto quenunca os lesse, o que ele confessava com honrada jactncia. Deucomo prova da corrupo das aldeias um suicdio e uma tentativade infanticdio no mesmo dia e na rea de um quarto de lgua. Fezao propsito reflexes polticas e at profticas. Previu o adventomonstruoso das ideias jacobinas. Disse que, na qualidade dedesembargador, lavraria a sentena de morte dos portugueses quemilitavam na Frana com o tigre da Crsega. Citou os generaisportugueses que deviam ser enforcados; e, num rapto de vidente,exclamou:

    Quem viver dez anos h-de ver cada a Inquisio, senhorcnego!

    Deix-la cair disse o padre. Deix-la cair? E a f? Qual f? A esttua que est no frontal da Inquisio no Ros-

    sio? Deix-la cair tambm, contanto que nenhum de ns estejadebaixo.

    Falo na f, no dogma, senhor cnego!

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    Ah! Isso outra coisa... Cuidei que me falava da F de pedra,senhor desembargador. 5

    ** *

    Este cnego, cujo retrato eu vi h dias, em Braga, na galeriados benfeitores do Hospital de S. Marcos, no era, como se v, umestrnuo defensor do Santo Ofcio, nem acreditava nas invencioni-ces de Bernardo de Brito, mas dava aos pobres invlidos e enfer-mos parte de suas rendas, e estimulava, como h pouco presenci-mos, a caridade dos seus hospedeiros amigos, em benefcio da enjei-tada. Folguei de ver aquele ridente aspeito em que reluzem unsolhos sagazes, posto que j desvidrados pelo puir dos setenta anos.Estava ao p de mim o nonagenrio provedor da Misericrdia queme disse ter ainda conhecido aquele alegre ancio com a sua cabeaveneranda gelosia de uma casinha da Rua de gua. Foi ele quemrecolheu no convento das Teresinhas de Braga, aos quinze anos,Maria Moiss, quando j eram falecidos o desembargador e umadas irms, a madrinha da enjeitada.

    Pelo que respeita a D. Maria Tibrcia, no sei se me acreditam,mas a minha obrigao atirar para a com as prolas da verdadesem me preocupar com o destino delas. D. Maria Tibrcia, preen-chidos os cinquenta e sete anos, casou com um mancebo, que estu-dava teologia moral com tanta incapacidade, que preferiu D. Tibr-cia, com 10 000 cruzados, ao Mestre Larraga com a cincia do cu.Este moo fazia sonetos e madrigais. Conhecia toda a simblica dasflores; mas no as comia como Esdras, a nica pessoa, que eusaiba, que se sustentou catorze dias de flores. Manducabis solum-modo de floribus, disse-lhe o anjo; deu-se bem o florfago, e acres-

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    5 A esttua da F, que estava encimando a fachada do palcio do Santo Ofcio no Rossio, foi derribadacom uma corda e despedaada em 1821. Na manh do dia seguinte os inimigos da revoluo liberalafixavam nas esquinas este pasquim:

    ESPERANA no h;F j no temos;E CARIDADE?Ns lha faremos...E fizeram.

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    centa Isidoro de Barreira tornou a comer outros sete dias flores, e a sustentar-se.6 A idiossincrasia do marido de Tibrcia no eram flores; era boi e leito, frigideiras de Braga e morcelas deArouca.

    O desembargador quis pr a irm por demente; mas ela, queperfazia quatro emancipaes completas, no lhe refilou os dentes,porque os no tinha, mas safou-se de casa e desmaiou cheia depudor e denguice nos braos de seu bardo e marido.

    A outra, D. Maria Filipa, injuriou-a at ao extremo de lhe dizer,cara a cara:

    Ests uma carcaa e queres casar! No tens vergonha! Peum custico nessa cabea, doida!

    Depois, fez testamento, e deixou 5000 cruzados a sua afilhadaMaria Moiss, representados na quinta de Santa Eullia, na mar-gem direita do Tmega.

    O tutor e director da recolhida, o cnego Botelho, desejou resi-dir um Vero na quinta de Santa Eullia para repassar tristementena memria os vinte estios que a folgara com o seu amigo Teotnioe com as duas irms, que ele, em dias de alegre humor, chamava asduas biscas, como quem diz que s tinham prstimo para a sueca.Maria, a herdeira da quinta, acompanhou-o, resolvida a no tornarpara o convento. Ideara um viver muito diverso do monstico. Nopodia conventualmente exercitar umas estranhas humanidadesque lhe agitavam o corao desde que sua madrinha lhe legararecursos para as realizar.

    Assim que chegou a Santa Eullia revelou ao cnego o seu pen-samento: era criar meninos enjeitados!

    Era bom e caridoso o padre; mas achou to original e extrava-gante aquela ideia em uma menina de dezoito anos, que lha desa-provou em termos enrgicos. Sabia o cnego que uma annimaviva francesa abrira um asilo de expostos perto de Saint-Landry;no ignorava que uma respeitvel matrona, Isabel Lhuiller, auxi-liara S. Vicente de Paulo em dar abrigo s crianas abandonadas;mas uma menina solteira a lidar com enjeitados afigurou-se-lheexerccio menos consentneo com a pureza e a candura de anostanto em flor. Alm disso, Maria Moiss, sozinha, sem famlia, semauxiliares, e desprovida de recursos bastantes, em que espcie de

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    6 Esdras, 4.9. Isidoro de Barreira, Tratado da significao das plantas, etc., pg. 21.

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    servio aos enjeitados empregaria a sua caridade? Indo busc-los roda para os criar em sua casa? Assoldadando amas para a criaofsica e mestres para a criao moral? Mestres para as letras e paraos ofcios? Em que veios de imaginrio ouro se alimentara esta uto-pia que poderia ser virtuosa se no fosse indiscreta?

    Ela ouviu silenciosa o cnego, e depois de muita instada aexplicar o seu propsito, disse singelamente:

    O meu desejo dar aos enjeitados a caridade que eu recebi. Mas tencionas procur-los? Isso no; espero que a Divina Providncia os leve onde eu

    estiver. s uma virtuosa criana, Maria replicou o padre mas

    vieste tarde procura dum mundo que passou. Exercita a caridadequanto as tuas foras to permitirem; porm, no vs alm do que terende esta quinta. Oito carros de milho, quatro pipas de vinho edez almudes de azeite o teu rendimento. Contam-se milagres demultiplicao que talvez se possam repetir no teu pouco; mas omais prudente contares pela aritmtica que eu te ensinei. Quemtem seis por ano e gasta sete, ao fim de seis anos tem s um. Gastaos seis, Maria, os seis somente em obras justas de misericrdia, eno ds alento aos costumes depravados tomando a teu cargo osfilhos que as mes abandonam.

    Tambm eu fui abandonada disse ela.Ora, passado alguns dias, Maria Moiss tinha em casa dois

    meninos na primeira infncia. O velho Francisco Bragadas, que eraagora caseiro da enjeitada que encontrou no rio, contou-lhe que amoleira da Trofa, viva de um soldado que estava l para as Ilhascom o irmo do Sr. D. Miguel, morrera de cambras deixando doisfilhos pequenos, que no tinham migalha de po.

    V, senhor cnego? disse ela. J tenho dois! Esses dois iria eu buscar-tos, se o reumatismo me deixasse,

    menina. Ento vou eu? Pois vai, Maria, vai... Assim, acredito eu que a Divina Provi-

    dncia tos mande. E olha que so mais dignos de compaixo osrfos que viram morrer sua me do que os enjeitados que a noconheceram.

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    ** *

    A filha que Isabel, mulher de Bragadas, amamentava, quando omarido lhe levou a enjeitada, era agora uma guapa moa de quemMaria se afeioara fraternalmente. Joaquina, posto que pobre, forapedida por um lavrador abastado de Cavez; deviam casar no S.Miguel, depois das colheitas; mas na noite de 24 de Agosto, quandoem Cavez se festeja o S. Bartolomeu, os festeiros do Minho briga-ram com os de Trs-os-Montes, segundo o brbaro estilo daquelaromagem. O tiroteio de ambas as margens do Tmega principiou sdez da noite. Ao romper da alva, os turbulentos acometeram-sepeito a peito de clavinas engatilhadas, e dos dois valentes que ca-ram mortalmente feridos na ponte, um era o noivo de Joaquina. Arapariga ainda o viu moribundo; quis despenhar-se da ponte, e foilevada sem alento para casa da me do morto, que a tratou com oamor que tinha a seu filho. Volvidos alguns dias, tornou para casados seus pais. Maria Moiss deu-lhe uma cama em sua casa, e fez--se a sua enfermeira moral; todavia as angstias da raparigarecresciam, e o propsito do suicdio revia-lhe nas meias confidn-cias sua benfeitora.

    Uma noite, acoroada pelo amoroso desvelo de Maria, a filha doBragadas, com mais lgrimas que expresses, revelou que estava per-dida, porque o pai de seu filho j no podia remediar a sua desonra.

    A enjeitada quedou-se a olhar para Joaquina com muita tris-teza e espanto. Do seu prprio nascimento inferia ela uma desgraasemelhante de Joaquina; mas o pudor, a religio, a repugnnciacongenial da sua vida pura sofreram uma dor ntima com a inespe-rada confisso. O corao decerto as tinha, mas no lhe inspirou depronto palavras confortadoras. Separou-se dela fundamentemagoada e pensativa; mas no adormeceu. Alta noite ouviu ringir aporta do quarto de Joaquina. Ergueu-se alvoroada pelo pressenti-mento de que a infeliz rapariga ia matar-se. No a encontrou noquarto; correu porta da sala de espe